Coisas da Arca do Velho

O Silêncio não habita no meu rumo; armo-me de palavras e atiro-me ao caminho.

30.1.07

Ninguém me viu por ali

O meu espaço é por eleição esta terra onde ainda se respira o ar puro das montanhas e do mar. E o olhar, este olhar que a paisagem se encarrega a pouco e pouco de ferir, perde-se ao longe, transportando a imagem degradante deste outro tempo, o nosso tempo que, de tão duro, tanto custa a esquecer: a corrupção continua à velocidade de um foguete. E outra vez a Bragaparques nesta conjuntura…

Procuro, então, libertar-me das preocupações de cada dia e é aí que reparo não ser tarefa assim tão fácil. Vou não vou, caminho nesta indecisão e retomo a leitura do Evangelho de Judas. Mais uma fantochada, digo eu. E porque é que Cristo havia de ser traído? E porque sorte teria que ser este pobre e bom apóstolo (Cristo já o sabia) eleito pelo divino para desempenhar tão vil papel?

A propósito de papel, passou estes dias por Braga, na bancada poente do estádio 1º de Maio, a Feira do Oculto. Ninguém me viu por ali. Não que o próprio cenário me ocultasse, nem esconder-me por entre os poderes mágicos dos videntes ou a estender a palma da minha mão a uma cartomante para que através das linhas ela pudesse ler-me a sina e ali mesmo assustar-me ao revelar os dias do meu destino. Tão-pouco consultar um pai de santo para me falar de um outro espírito. E que espírito!...

Do passado, pouco interessa saber; sobre o futuro prefiro caminhar ao ritmo dos acontecimentos, sempre atento ao que de melhor e de pior nesta terra se vai fazendo. E depois não é isso, estender a mão a uma cartomante é correr o risco de ficar sem ela.

Pois é, do passado apenas o passatempo dos dez mais que a equipa de Maria Elisa nos apresenta ou impinge como eleitos no honroso título de Maior Português. Entre estes, vejam bem: Salazar! E logo aqui se pode elaborar o argumento duma mais que estúpida e provocante comparação. Sabemos bem como é… Não quero nem por sombras acreditar que este gesto tenha por fim pôr meia dúzia de fascistas a esfregar as mãos de contentamento. Mas como dizia o outro «pero que los hay los hay»

Já agora, porque razão, nesta admirável dezena não teve lugar um destes videntes ou pais de santo que tudo sabem sobre as nossas vidas, sobre o nosso passado e o nosso futuro, sobre o nosso país e sobre o mundo?

Cá dentro a discussão continua como atrito. A campanha para o referendo sobre a despenalização do aborto está escaldante. Vejo que perdem o bom senso e a razão. Talvez até a loucura de querer conduzir, à força, um rio de palavras para o caudal da ameaça e do insulto e, com elas, uma a uma, fazer radicalizar a questão. Depois, rente ao concreto da vida descubro, para espanto meu, que alguns líderes religiosos fazem estalar o verniz da mansidão e da performance quando, ao arrepio de um debate que se quer digno e elevado, apelidam de criminosos assassinos os defensores do Sim. Tanto, confesso que não esperava. Nem me passa pela cabeça que, noutros tempos, por muito menos os lançariam na fogueira. Bom, não façam disto uma guerra entre católicos e ateus, nem reduzam, mais uma vez, as pessoas a números… para contar no fim.

17.1.07

Um Jogador à Maneira

Do Velho

O meu amigo Espiga é um famoso jogador de futebol que apenas aufere mensalmente o parco salário de 150 mil euros, mais o produto dos prémios de jogo e dos contratos publicitários. Teve sorte na vida, o meu amigo. Afinal, ele que nada sabia e nada fazia, lá conseguiu arranjar uma profissão. E o que havia de ser… logo aquilo que ele sempre gostou de fazer: jogador de futebol. E mesmo se não encontrasse este emprego, de tanto que gosta dele, hei-de crer que o meu amigo Espiga seria bem capaz de jogar de borla. Isto só para fazer o gosto ao pé…
A Patrícia é mulher do meu amigo Espiga. É uma gaja muito porreira, bonita, tem olhos azuis e o cabelo é loiro, bem penteado para trás e caído em jeito de rabo-de-cavalo. Sobre o cabelo, e seguros pelas orelhas, a Patrícia usa uns óculos castanhos a contrastar com o casaco de pele de crocodilo, que o Espiga lhe ofereceu no decorrer do mundial de 2006. Coisa pouca…. uma parte do prémio de um jogo.
Ele é mais modesto. Sempre foi um rapaz modesto: veste umas pobres calças de ganga já rotas, largas e compridas a arrastar no chão, uma t-shirt cheia de remendos e calça umas sapatilhas velhas e sujas que são uma vergonha. Mas não pensem que as foi buscar ao caixote do lixo. Não… olhem que são bem caras!
Oh, mas quantos pontapés e cabeçadas o Espiga tem que dar numa bola de couro, quantas vezes anda o meu amigo de rastos pela relva, quantas vezes corre ele atrás da bola por aquele campo fora! Sei lá… quantas vezes, quanto sacrifício, quanto sofrimento o meu amigo passa para fazer face à crise que o país atravessa e poder fazer uma bruta vivenda, comprar um carro topo de gama para ele e um outro para a Patrícia e pagar as despesas que ambos tem com o cabeleireiro. Sim, quantas? É claro que o meu amigo Espiga, como jogador de futebol, não pode ter um penteado qualquer nem andar num destes carros de trazer por casa, tão-pouco se pode inibir de comer nos melhores restaurantes da cidade. Pois claro! E então que diriam os outros, os colegas? Talvez isto: olha, este moina anda a guardá-lo para quando morrer. Dessas não quer ele ouvir…
Mas o pior aconteceu agora: não é que o governo se lembrou de acabar com o regime de excepção aos jogadores de futebol? Então eles não sabem que o meu amigo Espiga só pode ganhar este dinheiro durante uns dez anitos? E depois, sim depois, quando o Espiga deixar de chutar na bola quem é que lhe vai pagar se ele não sabe fazer mais nada? Ah… pois é, depois é vê-los no Instituto de Emprego ou na Segurança Social a pedir o subsídio de inserção.
Mas que fiquem sabendo lá os gajos do governo que o meu amigo Espiga e os seus colegas de profissão não se vão calar: vão fazer greve! Assim, já os governantes não vêem futebol. E que papel tem o Sindicato dos Jogadores nesta conjuntura? Não tarda, hão-de vê-los defronte ao palácio de S. Bento a agitar bandeiras pretas! E, cuidado, ainda lhes resta uma forma de protesto: ir para o campo e comer a relva toda!... Ou que pensam vocês?

5.1.07

Reis de verdade

Não são Gaspar, Belchior e Baltazar. Não ofereceram ouro, incenso e mirra. Não são Reis, não são magos, não são sábios, nem foram guiados, na noite, por uma estrela qualquer. Mas encontraram o Menino! Eles são o João, a Maria Eugénia e o Pedro. Gente boa, gente do povo que têm idades diferentes, caminhos desencontrados, hábitos semelhantes e histórias comuns.
O João é pedreiro. E, um dia, às sete da manhã, quando caminhava para o trabalho, ouviu o choro de um bebé. Correu em seu socorro e encontrou o Menino. Era um bebé recém-nascido ainda sem nome, sem roupa, enrolado num trapo, abandonado dentro de um contentor de lixo. Por pouco, o Menino, não foi triturado pelo camião que faz a recolha do lixo. A manhã era de chuva torrencial. Nesse dia, João já não foi à pedreira. De um folgo, tomou o Menino nos braços e foi para casa. Hoje o Menino está com o João, tem nome, tem roupa, tem leite e já sabe sorrir.
Maria Eugénia é operária têxtil em horário nocturno. Em Julho do ano findo, já alta madrugada, quando regressava a casa deparou com uma caixa em papelão furada, colocada junto à paragem do autocarro. De súbito, viu que a caixa mexia. Resolveu abrir a caixa e aí encontrou o Menino também recém-nascido, pintalgado de sangue ainda fresco e, a tapar-lhe a cara, santo Deus! Estava um papelinho escrito com letras quase imperceptíveis que, a custo, conseguiu ler: Quem o encontrar, faça o favor de o baptizar. Maria Eugénia logo levou o Menino ao hospital mais próximo onde ficou, por alguns dias, em cuidados intensivos. Maria Eugénia não dormiu. Passou a noite a trabalhar e o dia dividido entre o hospital e a esquadra de polícia onde foi interrogada. Hoje o Menino está lavado, baptizado, chama-se José, tem o nome do pai de Maria Eugénia – esta que o adoptou e com quem o Menino começa a soletrar a palavra mãe. Passa os dias próximo de si, porque Maria Eugénia foi atirada para o desemprego por falência injustificada da fábrica onde laborou durante vinte anos.

O Pedro é metalúrgico. Uma noite, quando passava na baixa lisboeta, apercebeu-se que um Menino com os seus quatro cinco anos, depois de levar à boca qualquer coisa que tirou do saco de lixo entrou para o interior de uma carrinha velha e abandonada, e, com umas caixas de cartão, ali se preparava para passar a noite. Era Dezembro. Estava frio e o século XX chegava ao fim. Pedro só ao cabo de algumas horas conseguiu falar com o Menino que mostrava muita dificuldade em soletrar uma palavra que fosse. O Menino apresentava claros sinais de fome e de desprezo, tinha um ar de pássaro aterrorizado e os olhos espetados no chão como quem recusa olhar a sociedade de frente. Não falava. Tão-pouco gesticulava. O ínfimo dado que Pedro recebia certificando-o de que estava a ser ouvido era simples: à pergunta de Pedro, o Menino abanava ligeiramente com a cabeça a querer dizer sim ou dizer não.
Quando, por fim, percorrido algum tempo a procurar entender o Menino, aparece o imponderável: alguém, naquela zona degradante e mal cheirosa, diz a Pedro que os pais do Menino morreram vitimados pelo SIDA. Foi aí que Pedro estendeu a mão ao Menino, e agiu em conformidade: levou-o para o hospital e depois para casa. Pedro andou anos para registar o Menino e dar-lhe um nome. Agora o Menino não tem medo, sabe falar, sabe dizer pai e mãe, sabe ler, sabe escrever e sabe brincar e sorrir.

É dia de Reis. O João, a Maria Eugénia e o Pedro não são Reis. Ou por outra: são Reis no mais puro sentido da palavra, no que de mais pode haver de amor e de ternura. Nada que se compare a outros reis... Mas hoje, noite de 5 para 6 de Janeiro é o seu espaço memorial porque também encontraram, cada um a seu tempo, o Menino. Contudo, não há ouro, não há incenso, não há mirra. Mas há Amor. E os Meninos, outrora abandonados por tantos reis e rainhas deste mundo, sabem reconhecer esta nobreza de sentimentos. Amanhã serão ser Reis de verdade.

1.1.07

Uma Balada para 2007

Ia dizer que 2006 carregou sobre nós alguns dos seus males. Mas não, não digo. Carregou e não carregou. É claro que houve momentos de desânimo, para não dizer revolta. A guerra, o desemprego, a fome, são acontecimentos que sempre mexeram comigo, com o leitor, com todos. Mesmo assim ainda espero os instantes que me hão-de animar para derrubar a carga destes dias quase intoleráveis e, por uma última vez, possa libertar-me da sua dura crueldade. É o caso das guerras no Iraque e no Líbano, é o caso da forca e do último enforcamento, quiçá, precipitado a fechar o velho 2006, e depois… as nefastas consequências que por aí já abundam.
Hei-de crer que o homem ainda possui a suficiente coragem para dar um safanão ao egoísmo e à ganância que procuram levá-lo para o inferno. Que faça uso dela! E, com esse safanão, possa avivar um tempo de paz e de transparência para caminhar tranquilamente ao ritmo do que nesta vida de bom vai acontecendo. Porque nunca é tarde para dar um pontapé à rotina peçonhenta dos dias.
Ao iniciar este novo ano, e neste primeiro dia de 2007, procurando já esquecer escândalos de um passado recente que ainda nos envergonha, outra coisa não se esperava que aqui confessasse senão o que de melhor, de mais puro e mais belo elegi: todos os meninos que nasceram até ao último instante do ano que hoje ficou para trás, e os que nasceram neste que ora entra. Pois na maternidade que visitei, nestes dias rendidos a uma balada para o Natal, tive o privilégio de assistir, ao vivo, a um conjunto de presépios: a ladear cada cama, ali estavam a mãe e o pai e, com eles, uma beleza incomparável e infinita: alguém, sem mácula, que irrompeu do ventre materno para abrir os olhos neste mundo: o Menino! Quem sabe se um dia o menino vai abrir os olhos a este mundo?
Fui tentado a dizer ser esta a mais rica prenda que neste Natal recebi. E foi!... E digo!...
E, por ser verdade, talvez um universo de palavras ainda fique por dizer com que pudesse expressar contentamentos, vontades e felicidade. Mas penso até que à força de escrever um só destes nomes, Pai, Mãe, Avós, baste para mostrar quanta beleza sob o meu olhar ali se expôs, na difusão do tempo, esse tempo que ficará para sempre registado na minha memória.
Daí que nem uma frase, uma só frase neste primeiro dia do ano, possa tanto animar um postal onde se escreve uma balada para 2007, à sorte me daria tanta graça e maior contentamento.
E, neste desafio, fico-me no limite desta interrogação: Será que 2007 vai surpreender o mundo? Será este o ano em que os homens se vão tornar meninos? Pois que seja!... Meninos como aqueles que nasceram e os meus olhos viram. Meninos com uma paz espantosa e uma admirável serenidade.
Depois desta breve formulação de votos que, por estes dias, um menino fez questão de me oferecer, que poderei eu dizer de mais importante aos leitores do Correio do Minho nestas primeiras e felizes linhas que escrevo ao abrir o ano? Apenas isto: Que cada um procure a pureza que estes meninos nos trouxeram ao nascer. A pureza e a paz que já tivemos no dia do nosso nascimento. Lembrando ainda que todos podemos renascer em cada dia.
Creio finalmente ter encontrado o caminho aberto para continuar a implacável trajectória da vida: que cada um procure o bem do outro, dados como somos ao trabalho desinteressado e voluntário nas associações de carácter humanitário, doravante, possamos dar um passo a pensar nos meninos que vivem na miséria, a pensar nos meninos que não têm pão, nos meninos que são abandonados e nos que vivem em casas degradadas e em condições quase inumanas. E, acima de tudo, pensar que em cada menino que nasce pode estar o homem que vai virar o mundo do avesso. Bem preciso é!...

Do Velho

30.12.06

Da Infância

Trago-te da infância
um sorriso de tâmaras
e esse olhar ingenuamente puro
que os pássaros guardaram como herança
Trago-te da infância
a magia dos sonhos demorados
o segredo dos brinquedos que inventei
e as asas duma borboleta
que me visitava todas as manhãs
Trago-te da infância
um navio de palavras sem idade
a subtil timidez dos gestos
que só agora posso decifrar

25.12.06

Prendas de Natal e o Menino Jesus

Estamos a escassos dias do Natal e ainda não sei as prendas que vou dar e a quem dar. Ele há tanta coisa por aí que nem sei o nome da chamada prenda útil. É sempre uma ajuda saber a prenda que a pessoa prendada gosta de receber. E aqui é que está a grande dificuldade de escolha, ou, pior ainda, a impossibilidade de a comprar.
A propósito de prendas, na infância tive a maior desilusão. De tal modo que me zanguei seriamente com o Menino Jesus. Foi quando coloquei o sapato na lareira.
Deixem-me descrever, se a tanto for capaz, e em breves linhas, a lareira de casa de meus pais. Era assim: ao canto direito, virado a norte da cozinha em terra batida, estavam colocados dois tijolos à distância 0,60m um do outro, e, sobre eles, uma grelha onde cabiam duas pequenas panelas. Entre os tijolos, ardiam duas canhotas e o fumo evadia-se por entre duas telhas ligeiramente mais levantadas que as restantes, a que se chamava chaminé. As paredes que faziam o canto da lareira, como se pode imaginar, estavam totalmente negras do fumo.
Foi, pois, nesta lareira pobre, duma família muito pobre, que coloquei o sapato. Quando acordei, logo pela manhã, confiante que o Menino Jesus havia lá colocado qualquer coisinha, fiquei pior que estragado: o sapato estava vazio! Nada!
Nessa manhã, ao ver os restantes meninos brincar com as prendas que diziam ter sido o Menino Jesus a colocar nos seus sapatinhos, ficava como o mais desprezado das crianças. Era então que pensava num Menino Jesus de uma crueldade espantosa e que praticava uma grande injustiça ao dar boas prendas aos filhos dos ricos, prendas mais fracas aos filhos dos menos ricos e nenhuma prenda aos filhos dos mais pobres. Era assim, rigorosamente assim!
Andei anos a dar como prenda de Natal um livro, uma pasta de chocolate e um estojo Parker dos mais baratos, e, aos mais pequenos, um carrinho de madeira e uma boneca de plástico. Ficava-me por aqui… e viva o velho!
E enquanto eu me ficava por aqui, sei que por esses anos alguns amigos meus já diziam dar prendas muito mais ricas: Um computador, um relógio, um piano e coisa do género. Outros iam mais longe: Um Ferrari, um apartamento, um conjunto de jóias, um casaco de pele dum animal selvagem e por aí adiante.
Mais tarde, ainda na infância, comecei a perceber que as prendas de Natal não eram dadas pelo Menino Jesus, mas pelo homem. E que as prendas eram dadas segundo o bolso de cada homem. Ou por outra: quanto maior era o bolso maior era a penda. Era assim… é assim…
E foi na infância, no Natal de cada ano que passava, que me apercebi, já aí, culparem Jesus pelos erros e pela injustiça que o homem praticava. Não admira, portanto, que continuem a invocar o seu nome aquando da invasão de um país, e que o usem como permissão para fazer a guerra. Já assim quiseram ensinar-me… e eu confesso que sempre recusei aprender.